domingo, 7 de agosto de 2011

Capitão América: O Primeiro Vingador


ATENÇÃO: esse texto contém SPOILERS!!!

Que hoje sabemos que o cinema hollywoodiano é um grande palco para a divulgação da cultura e dos valores norte-americanos isso não é novidade. De vez em quando surgem filmes em que seu único propósito é propagandear o poderio bélico, econômico e político dos Estados Unidos ligados a um forte sentimento patriótico. NÃO! Esse tipo de filme não enquadra Capitão América: O Primeiro Vingador, no entanto o contexto histórico no qual o filme é inserido e o papel do herói nele levantam uma ótima oportunidade para se discutir a propaganda dos Estados Unidos durante a Segunda Guerra Mundial no eixo das mentalidades.

Dirigido por Joe Johnston, Capitão América: O Primeiro Vingador mostra a origem do herói na década de 1940, mais precisamente em 1941 quando os Estados Unidos entra na Segunda Guerra Mundial.


Steve Rogers é um rapaz franzino e frágil, mas com uma força de vontade inigualável, onde seu único propósito é lutar pelo país nos campos de batalha na Europa. No entanto a cada exame, Rogers é rejeitado pelo seu fraco desempenho físico até conhecer o Dr. Abraham Erksine que lhe oferece a oportunidade de servir ao seu país. Steve Rogers torna-se cobaia numa experiência e quando um soro lhe é aplicado ele torna-se um super-soldado e consequentemente um símbolo na campanha de guerra. Para saber mais sobre o filme confira meu comentário no Cine Blog:

http://lacineblog.blogspot.com/2011/08/capitao-america-o-primeiro-vingador.html

O personagem Capitão América é fruto de um contexto histórico onde o patriotismo, a força e a coragem que o personagem ostenta e defende era exigido dos cidadãos norte-americanos.

Criado por Joe Simon e Jack Kirby, Capitão América foi publicado pela primeira vez em março de 1941 na revista Capitain America Comics #1. Na revista Steve Rogers lutava contra os nazistas ao lado do seu companheiro Bucky. No entanto após o término do conflito, Capitão América caiu no esquecimento.

Mas o que torna o Capitão América tão importante em 1941? Já nesse ano o Governo norte-americano previa que a sua participação na guerra era inevitável. No entanto precisava-se mostrar isso a população, divulgar que os governos totalitários na Europa eram uma ameaça real e alavancar a produção bélica.

Em 7 de dezembro de 1941, a base naval de Pearl Harbor é atacada pelos japoneses. O ataque não deixava dúvidas de que os Estados Unidos estava mais que envolvido no conflito e que agora deveria lutar ativamente nos campos de batalha e defender a nação de possíveis novos ataques. Nesse ponto a propaganda de guerra voltava-se a incentivar a produção, conservar materiais essenciais como a gasolina e mostrar que todos deveriam fazer sua parte. Homens, mulheres e crianças, todos juntos sobre um forte ideal patriótico.

Nesse contexto o imaginário foi bastante explorado nos cartazes. Imagens mostravam a ameaça nazista sobre as crianças, a honra de homens e mulheres em servir ao seu país, o incentivo a compra dos bônus de guerra que garantiriam a liberdade da América das garras do nazi-fascismo.

A campanha propagandística dos Estados Unidos, a partir de 1942, começou a incentivar ainda mais a participação das mulheres, onde a menssagem que era transmitida encorajava o público feminino a ajudar seu país ocupando postos na produção industrial e nas forças armadas.

Não apenas cartazes eram usados, mas também filmes. Frank Capra produziu diversos para o exército americano, onde alguns deles eram usados na desumanização do inimigo. Italianos, alemães e japoneses eram vistos como loucos assassinos e obedientes aos seus insanos líderes. Em Conheça Seu Inimigo – O Japão, lançando nos últimos meses da guerra do Pacífico, Capra desumaniza os japoneses representando-os como um povo sem nenhuma liberdade e obedientes aos comandos de seus líderes. Essa desumanização nos filmes fazia de um determinado personagem o representante de tudo um grupo.

Em Capitão América: O Primeiro Vingador o vilão não escapa a essas definições de desumanização. Hugo Weaving interpreta o vilão Johann Schimdt, o Caveira Vermelha, líder da Hidra, que não apresenta nenhuma ambição a não ser ter total poderes em suas mãos. Sua desumanização fica latente quando o seu rosto real aparece.

Na indústria dos quadrinhos, o Capitão América já lutava contra os nazistas bem antes dos Estados Unidos se lançar a guerra. Na primeira capa da revista, o herói já surge socando a cara de Hitler. Lembrando que a revista do “Sentinela da Liberdade” foi lançada em março de 1941 e os Estados Unidos só declarou guerra em dezembro de 1941, por que os roteiristas dessa revista “furaram” a neutralidade de seu país? É que nesse momento muitos roteiristas de HQ’s nos Estados Unidos eram judeus e através das páginas de suas histórias propagandeavam sobre os danos do nazismo e do ódio que eles nutriam pelos judeus.

Entre alguns desses roteiristas podemos contar com Jerry Siegel e Joe Shuster, criadores do Superman, Bob Kane, o criador de Batman, Jack Kirby, co-criador do Capitão.

Quando disse no início desse texto que Capitão América: O Primeiro Vingador não era um filme propaganda dos Estados Unidos, disse, pois acredito que a dosagem patriótica foi amenizada levando em conta o atual cenário do país no mundo. Vale lembrar que esse filme faz parte de um projeto maior dos Estúdios Marvel: Os Vingadores, filme que irá reunir vários heróis já apresentados no cinema.

No entanto Joe Johnston foi feliz em lembrar que o personagem dos quadrinhos fazia parte de uma campanha de guerra e inseriu isso ao seu filme de forma brilhante.

Chris Evans interpreta um Steve Rogers convincente onde o seu patriotismo não parece exagerado ou ufanístico demais. Rogers demonstra seu respeito patriótico ao enfrentar um valentão no cinema que se mostrava impaciente em ver os cines-jornal que mostravam a guerra na Europa e faziam propaganda. Rogers luta com o valentão e mesmo sem ter nenhuma chance, já que ele ainda não havia se tornado o Capitão América, não desisti de lutar.

A força de vontade, a inteligência e a fé num bem maior pode também ser notado quando Rogers está treinando no exército. Apesar de ser o mais diferente de todos – baixo, magro, sem resistência física – Steve aceita todos os desafios e é primeiro a dar sua vida para resguardar a de seus companheiros.

Após a experiência que o torna o Capitão América, o Sentinela da Liberdade, a convite de um senador torna-se um símbolo da propaganda norte-americana para a arrecadação de bônus de guerra. A sequencia que mostra a viagem do herói pelos Estados Unidos é interessante, pois vemos como o símbolo de luta que o Capitão se torna é passado ao público que vive uma realidade distante dos campos de batalha. Esse público reage de forma diferente quando o Capitão América faz uma apresentação aos soldados que estão lutando nas frentes de batalha. Tais soldados reagem com desdém aos valores propagandeados pelo Capitão.

Vestindo as cores e os símbolos da bandeira dos Estados Unidos – nesta sequencia o filme mostra a roupa original do herói e o seu primeiro escudo - Capitão América se apresenta em corais ao som da música Star Spangled Man incentivando a comprar dos bônus de guerra. Se num primeiro momento o herói fica meio desconfortável com essa situação, logo após ele parece gostar de representar o papel.

Capitão América: O Primeiro Vingador nos oferece uma ótima referência para se refletir o imaginário da propaganda em tempos de guerra nos Estados Unidos. Outra reflexão pode ser feita para perceber como um personagem como o Capitão América é necessário aos Estados Unidos naquele momento. Imagens de cartazes da época ou até mesmo capas e páginas da revista do herói naquele contexto podem servir como uma excelente ferramenta para se discutir o assunto em sala de aula.


título original:Captain America: The First Avenger
gênero:Aventura
duração:2 hr 4 min
ano de lançamento: 2011
estúdio: Mavel Enterprises
distribuidora: Paramount Pictures / UIP
direção: Joe Johnston
roteiro: Christopher Markus, Stephen McFeely e Joss Whedon
produção: Kevin Feige
música: Michael Giacchino
fotografia: Shelly Johnson
direção de arte: Neal Callow, Dean Clegg, John Dexter, Jason Knox-Johnston, Chris Lowe, Phil Sims e Clint Wallace
figurino: Jeffrey Kurland e Anna B. Shepperd

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