quarta-feira, 28 de abril de 2010

Diretores e Historiadores

A edição número 7 da revista MOVIE traz uma matéria muito interessante com o diretor Ridley Scott que fala sobre o seu último filme Robin Hood. Scott diz que se sentiu muito atraído a realizar essa nova versão de Hood, pois poderia contar de forma mais “realista” essa história, apoiado em fontes históricas. Aliás, Ridley Scott se mostra sempre muito interessado quando o conteúdo que aborda em seus filmes contem material histórico, peguemos por exemplo, Gladiador, Cruzada e 1492 – A Conquista do Paraíso. E várias também foram obras cinematográficas que procuraram atrair o publico apelando para os fatos históricos como Rei Arthur, mas até onde a liberdade poética atrapalha a interpretação desses fatos históricos? O cineasta estaria disposto a fazer o trabalho de um historiador?

Para chegar à conclusão de um “fato histórico”, o historiador pesquisa muito até apontar uma versão para um determinado momento da história. Digo “versão”, pois mesmo entre os historiadores não há consenso sobre determinados fatos, não há uma “verdade

sábado, 24 de abril de 2010

OLYMPIA 98 ANOS. PARABÉNS!

No início do século XX, Belém era uma cidade onde o cinema já havia encontrado terra firme. Vários estabelecimentos já se organizavam como verdadeiras casas exibidoras deixando de lado um passado recente onde as exibições eram feitas de forma amadora em teatros alugados ou em barracas. Belém tinha na primeira década do século XX 12 cinemas funcionando e em 1912 foi inaugarada a primeira casa de "luxo" voltada para as exibições.

O cinema Olympia foi um empreendimento de Antônio Martins e Carlos Augusto Teixeira que eram proprietários do Grande Hotel e do Palace Theatre. O cinema Olympia estava estabelecido no perímetro que se chamava Largo da Pólvora e era o local mais frequentado pela elite belenense. O novo cinema vinha atender a uma necessidade da própria elite que não frequentava outros pontos exibidores da cidade.

E na noite de 24 de abril de 1912 era inaugurado o cinema Olympia, no entanto o assunto do dia, ou melhor, o assunto mais discutido naquela noite foi o naufrágio do Titanic, que havia ido a pique no dia 15 daquele mês e ano.

O que melhor pode descrever o que foi aquela noite é a notícia publicada no jornal a Folha do Norte do dia 25 de abril de 1912:
"Marcou um verdadeiro acontecimento nas rodas elegantes desta capital, entre o que a sociedade tem de mais fino, de chic e culto, a inauguração do Cinema Olympia, realizada ontem no luxuoso Edifício construído para esse fim à Praça da República, esquina da Rua Macapá.
Tudo o que Belém tem de belo, de encantador e de alegre, concorreu com a sua presença para o brilhantismo da serata, dando por alguns momentos à nova casa de diversões, um aspecto delicioso de raro prazer, que bem traduz a ansiedade qm que se achava a nossa população por um centro que pudesse experimentar a deliciosa sensação de viver que nos dá o contato com gente sadia e distinta que se diverte".
 Parabéns Olympia pelos 98 anos! Parabéns ao povo paraense que dá valor ao que tem.

FONTE: VERIANO, Pedro. Cinema no Tucupi. Secult/PA, 1999. p.17

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Cinema em Belém: primeiras cenas.

Pretendo discutir aqui alguns pontos da minha pesquisa. Neste trabalho abordo os primeiros anos do cinema na cidade de Belém, mais precisamente na primeira década do século XX. Nesta pesquisa pretendo também abordar sobre os cinematógrafos que circulavam na cidade de Belém, como esses aparelhos faziam parte de um imaginário moderno e como os habitantes da cidade se relacionavam com esses novos espetáculos.

Claro que para destacar os anos iniciais do século XX tenho que lembrar que as origens do cinema estão um pouco mais atrás. O cinema é uma invenção do século XIX. Mas quem o criou ainda gera controvérsias. Em O Cinema no Tucupi (1999) Pedro Veriano conta sobre os dois grupos que trabalhavam as imagens em movimento no século XIX: Thomas Alva Edison nos Estados Unidos e os irmãos Louis e Auguste Lumière na França. Porém os irmãos Lumière levaram a fama de terem criado o cinema - o aparelho criado por eles foi batizado como cinematographo - sendo a primeira exibição também atribuída aos irmãos: foi no dia 28 de dezembro de 1895, no subsolo do Grand Café, situado no bulevar des Capucines. O cartaz colocado do lado de fora anunciava a atração daquele dia: "Cinematógrafo Lumière".

Em Belém do Pará a primeira exibição de cinema ocorreu no dia 29 de dezembro de 1896 no Theatro da Paz, mas o aparelho utilizado foi o Vitascope de Edison. A exibição foi precária, as imagens tremiam o que não agradou o público belenense. No entanto essa primeira impressão não impediu que outras exibições ocorressem na capital do Pará. Em 1903, um aparelho Biograph estava instalado no arraial de Nazaré atraindo os romeiros.

O aparelho cinematógrafo dos irmãos Lumière surge pela primeira vez também nas festividades de Nazaré . Segundo Pedro Veriano teria sido Nicola Parente quem introduziu um aparelho Lumière e também o primeiro a filmar no Pará.

Mas que filmes eram exibidos na fase inicial do cinema? Bem, não eram filmes, mas eram as “vistas”. Geralmente paisagens de alguns lugares da Europa como Paris e Portugal. Em 1901, O Grande Circo Apollo exibia 80 vistas de Lisboa e do Porto . Na primeira exibição realizada por Louis e Auguste Lumière, em 1895 foram exibidos títulos como A saída das operárias da fábrica Lumière e a Chegada do trem à estação Ciocat.
As primeiras exibições ocorriam em feiras ou em exposições. Aqui em Belém os aparelhos ficavam instalados em teatros e geralmente faziam parte de outras atrações que os estabelecimentos ofereciam. Como vimos acima, no tempo do arraial de Nazaré os cinematógrafos, instalados em barracas, também eram um espetáculo a ser conferido. De fato, ainda não existia o cinema como espaço de exibições exclusivamente para os filmes, mas essa primeira fase preparava o terreno para uma profissionalização do cinema como indústria.



segunda-feira, 19 de abril de 2010

Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal

Indiana Jones é sinônimo de aventura no cinema. Imortalizado pelo ator Harrison Ford, Jones é um personagem criado por Steven Spielberg e George Lucas. Ele é um professor de Arqueologia que viajou os quatro cantos do mundo enfrentando diversos inimigos para recuperar artefatos históricos tidos como mágicos como a Arca da Aliança e o Santo Graal. O primeiro filme é de 1981, Os Caçadores da Arca Perdida; em 1984, O Templo da Perdição e em 1989 A Última Cruzada. No entanto esse não foi, de fato, a "última cruzada" de Jones, pois em 2008 ele voltaria ao cinema em Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal.

Dessa vez Indiana Jones não irá enfrentar nazistas, pois a Segunda Guerra já terminou. O filme ambientado agora em 1957 traz novos inimigos: os comunistas (espere um post sobre como hollywood retratou os comunitas). Espiões soviéricos estão atrás das caveirasde cristais, artefatos místicos carregados de poder. Essa busca leva Indiana Jones ao Brasil, onde em plena floresta Amazônica encontra a cidade perdida de

Os Trapalhões e o Mágico de Oroz

Esse texto recebi de um primo meu por e-mail, resolvi postá-lo, pois tem tudo haver com o nosso conteúdo de discussão. O texto é de Felipe Bragança.

Os Trapalhões e o Mágico de Oroz, de Dedé Santana e Vitor Lustosa.

Sexto e penúltimo filme da fase temática sobre ícones das mazelas sociais brasileiras, O Mágico de Oroz traz o quarteto Os Trapalhões no ápice de sua representatividade midiática, quando tinham se tornado os principais interlocutores com o público de cinema brasileiro (principalmente o infantil) e uma referência central na constituição do imaginário audiovisual pré-abertura política.

Esse sucesso de massas, articulado à parceria com o projeto estatal da Embrafilme, fez de O Mágico de Oroz um filme-síntese do que de melhor e pior havia conseguido o cinema dOs Trapalhões até então. Depois da fase mágico-fantasiosa, baseada em paródias do universo pop e dos contos de fada (retratada no documentário O Mundo Mágico dos Trapalhões – 1981) e de uma série de filmes de

terça-feira, 13 de abril de 2010

Hércules


Esse filme é uma ótima dica para os professores do 6º ano do ensino fundamental que querem trabalhar o conteúdo de mitologia grega com seus alunos. De uma forma bem humorada, Hércules consegue transmitir muitas caraterísticas das práticas religiosas do mundo grego para as crianças.

Como é de praxe, os filmes Disney que trabalham com personagens históricos conhecidos, como Mulan e

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Cinema na UFPA. Que beleza!!! Parte II

APROVADA GRADUAÇÃO EM CINEMA E AUDIOVISUAL. Esse era o título da reportagem publicada no jornal "Amazônia" do dia 1º de abril de 2010 - espero que não seja mentira. Mas não é. A Universidade Federal do Pará aprovou a graduação em Cinema e Audiovisual em reunião ordinária realizada na tarde do dia 31 de março, já serão ofertadas 25 vagas no próximo processo seletivo.
Segunda a reportagem, a graduação estará inserida na Faculdade de Artes Visuais (FAV), do Instituto de Ciências e Arte (ICA/UFPA).
"O objetivo da graduação é oferecer formação em campos particulares do audiovusial, com ênfase em direção de imagens, fotografia, produção, roteiro, direção de arte, som, animação, montagem e finalidade - e assim tornar o aluno capacitado a criar e gerir produções na área de cinema", diz a reportagem.

Cinema na UFPA. Que beleza!!!

O Departamento de Comunicação Social da Universidade Federal do Pará (UFPA) abre, a partir de 1º de março, as inscrições para o primeiro curso de especialização em Audiovisual. A especialização em "Imagem e Sociedade - Estudos sobre o cinema" é voltada para profissionais formados no curso de Comunicação Social e nas áreas de Letras e Artes, Ciências Sociais e Ciências Sociais Aplicadas.

No entendimento da UFPA, essas áreas de conhecimento abrangem inclusive a grande maioria dos profissionais com atuação no mercado cinematográfico do Pará. O curso, já aprovado pela UFPA, tem as inscrições abertas no período de 1º a 15 de março deste ano, e os candidatos a uma das 30 vagas ofertadas pelo Departamento de Comunicação Social (Decom) da UFPA serão submetidos às etapas do processo de seleção, isto é, a análise curricular, a entrevista e à apresentação do anteprojeto de monografia.

De acordo com a professora Regina Lima, chefe do Decom da UFPA, o curso de especialização não é um curso técnico sobre cinema. O curso, na relidade, é teórico e trata-se de uma oportunidade para que os profissionais, principalmente os que já trabalham na área de cinema no Pará, discutam sobre os temas que estarão presentes nas disciplinas, como a linguagem cinematográfica, as políticas voltadas para a captação de recursos e outros temas relevantes ao cinema na região. "Nós não vamos ensinar ninguém a fazer um roteiro ou algo parecido. Como em qualquer outra área, nós não temos como ensinar as pessoas a fazerem aquilo que elas já fazem no mercado de trabalho. Nossa proposta é ampliar a reflexão, a crítica e dar ainda mais instrumentalização teórica ao fazer cinematográfico", explica a chefe do Decom.

Regina Lima diz ainda que a nova especialização é um projeto do Decom, mas que foi finalizado com a participação de integrantes da Associação de Profissionais de Curta-Metragem do Pará e outros profissionais ligados à área cinematográfica que participaram das discussões e contribuíram para definir o formato do curso, que terá um núcleo geral e uma parte específica que vai contemplar não só o cinema, mas em outro momento terá ênfase em fotografia e outras áreas afins. "Durante o curso vamos trazer profissionais de outros Estados e trocar outras experiências para enriquecer as nossas discussões sobre os temas", informa Regina.

Entre as disciplinas a serem ministradas, o professor Fábio Castro, coordenador da especialização, explica que três delas - "Teoria da imagem e da representação", "Imagem e sociedade na Amazônia" e "Metodologia de pesquisa em comunicação e cultura" - fazem parte do núcleo geral do curso, que este ano será voltado para o cinema, mas que já tem confirmado para o próximo ano a especialização Imagem e Socidade - Estudo sobre a Fotografia. "Dependendo da procura, pode ser que tenhamos outro curso sobre o cinema, mas a idéia é manter a especialização voltada, a cada ano, para uma das áreas de interesse da produção cultural e imagética", diz o coordenador.

Fábio explica ainda que para esse primeiro curso, de estudo sobre o cinema, a UFPA terá, entre as disciplinas específicas, "História do cinema", "Linguagem cinematográfica" e seminários de estudos sobre o cinema, cujos temas deverão compor a parte que pode ser considerada mais prática no curso. "A nossa expectativa é que dentro dos seminários haja uma troca das experiências já vividas pelos profissionais do cinema na região, experiências que virão somar-se às nossas discussões acerca dos temas propostos", diz o professor Fábio Castro.

Vagas - Das 30 vagas ofertadas pela UFPA, cinco serão destinadas pelo Decom a candidatos que não tenham condições financeiras de pagar pelo curso de especialização, que não tem taxa de inscrição, mas terá taxa de matrícula e mensalidades com planos diferenciados de pagamentos. O professor Fábio Castro informa que os critérios de seleção para as cinco vagas isentas de pagamentos serão divulgados a partir de hoje no edital e através do Decom, bem como os critérios para as demais vagas do curso.

Além de preencher o formulário de inscrição, o candidato deverá apresentar ao Decom o projeto de acordo com um modelo que também será fornecido pelo Departamento. "Vamos fornecer o modelo e dar as orientações necessárias. é um projeto simples, mas que deverá conter o plano para a monografia do candidato", explica Fábio Castro.

Serviço - O edital e informações sobre o a especialização em audiovisual no curso "Imagem e Sociedade - Estudos sobre cinema" estarão à disposição a partir de hoje no Departamento de Comunicação Social da UFPA. As inscrições estarão abertas de 1º a 15 de março deste ano. Informações no Decom/UFPA pelo telefone 211-1586 e pelo e-mail: imagem_esociedade@hotmail.com.

Fonte: O Liberal Online

domingo, 4 de abril de 2010

A Paixão de Cristo - Parte III

Neste último post a respeito do filme A Paixão de Cristo de Mel Gibson, vou destacar um dos pontos mais polêmicos do enredo que refere-se à flagelação e a crucificação de Jesus. No entanto antes de analisar o filme em si veremos de que maneira esse relato da Paixão é descrito pelos historiadores e pelos evangelhos.

Segundo os evangelhos de Matheus, Marcos, Lucas e João, Jesus após ser condenado, foi açoitado (Matheus 27,26; Marcos 15,15; Lucas 23,25; João 19,1). O castigo da flagelação era um modo de infligir medO ao público, logo o indivíduo era açoitado até perder todas as forças. Depois desse castigo, Jesus carregou sua própria cruz até o Monte Gólgota, lugar situado fora dos muros de Jerusalém, ponto visível para as pessoas que saíam e entravam na cidade. Jesus é pregado na cruz e morre.

O cinema nos proporciona uma experiência única. Uma coisa é ler sobre a Paixão, escutar a história, outra é ver as imagens, mesmo que interpretado por atores. É aí que Mel Gibson pega o seu espectador. Na busca por diferenciar seu filme das outras versões, o diretor Gibson quer mostrar o lado real da história, o “foi assim” e retrata o momento da flagelação, mas como um verdadeiro circo de horrores, um espetáculo sádico. Os acoitadores se divertem rasgando a carne do condenado com flagelos de ferro. Mel Gibson utiliza dos efeitos especiais para mostrar uma flagelação digna do filme Jogos Mortais. Quer comover, emocionar e chocar a quem assiste ao filme a ponto do espectador querer adotar a imagem representada como uma imagem do fato histórico. Jesus foi açoitado. Mas lendo os evangelhos não temos a dimensão desse ato. Mel Gibson vai além das outras versões cinematográficas jogando o espectador no meio daquele "matadouro".

Não bastasse a experiência única de ver a versão de Gibson da flagelação, vamos agora para a caminhada de Jesus até ao Monte Gólgota. Diferente do que o filme mostra, Jesus não carrega a cruz inteira, mas apenas a viga transversal dela. Mas isso não é contraditório? Se Gibson que apelar para o lado “real” da história, por que mostrou Jesus carregando a cruz inteira? Provavelmente porque Gibson utiliza dos fatos a maneira que acha conveniente. Vale lembrar que Mel Gibson é católico fervoroso,daquele grupo que não aceita as reformas propostas pelo Concílio Vaticano II e mantém um certo conservadorismo. Como podemos ver essa característica conservadora está presente no imaginário que Gibson possui a respeito da Paixão de Cristo. Ele adota uma imagem perpetrada pela arte e que faz parte do imaginário de bilhões de pessoas: Jesus carregou a própria cruz inteira. No entanto sabemos que de fato isso não aconteceu. Jesus carregou uma viga, pois no local na crucificação já havia um patíbulo, e esse com a viga forma um “T”, ou a “cruz”.

Depois de ser açoitado e humilhado pelos militares, “... E tecendo uma coroa de espinhos, puseram-lha na cabeça e na mão direita uma vara... e cuspindo-lhe, tomavam a vara e batiam-lhe com ela na cabeça” (Matheus 27), Jesus é alvo da população. Condenado como “Rei dos Judeus”, Jesus carrega um letreiro indicando o seu crime e a todo momento é alvo da violência da população, fato retratado no filme. Era comum a população participar dessa forma, vale lembrar que naquele momento Jesus não passa de mais um rebelde condenado.

Jesus chega ao Monte Gólgota. Mais sofrimento. No filme de Gibson Jesus ainda padece na mão dos militares que o pregam na cruz. Aqui mais um ponto de discussão. O filme mostra Jesus sendo pregado pelas mãos, no entanto é bem provável que tenha sido pregado pelos pulsos. Mais uma vez Gibson adere ao imaginário comum e procura comover o espectador com mais cenas de violência, que a essa altura do campeonato já se torna cansativo.

De fato, tudo o que Jesus sofreu estava conforme a lei romana: o julgamento, a condenação e a punição. Mel Gibson procura recontar a história mais conhecida do mundo como se ninguém a conhecesse de forma visual. Isso nos leva a imaginar que para Gibson a história não tinha tanta importância quanto as imagens que ele queria mostrar, ou seja, a história que todos conhecemos, mas nunca “vimos”. E provavelmente essa experiência de “ver” está baseada nas cenas em que Gibson apela da violência. Esta não é gratuita, se levarmos em consideração que o relato da Paixão nos mostra a história de um homem que sofreu e morreu para redimir os pecados da humanidade, dar esperança. Uma pena que essa mensagem fica de forma secundária ao assistirmos ao filme, pois no final da exibição ainda roda em nossas cabeças a plasticidade das cenas violentas.

FONTES

Galera estava cometendo um erro grotesco! Estava esquecendo de colocar as fontes que uso para escrever meus posts sobre a Paixão de Cristo, mas aí vai:

MINOUNI, Simon C. A Morte de um Rebelde. Revista História Viva Grandes Temas nº 19. p. 66-73

BOHEC, Yann Le. Diante dos juízes, o acusado se cala. Tradução de Celso Paciornik. Revista História Viva Grandes Temas nº 1. p. 84-91

VISSIÉRE, Isabelle. O Beijo de Judas. Revista História Viva nº 65. Março de 2009. p. 26-29.

A Paixão de Cristo - Parte II

Um outro ponto que destaco no relato da Paixão é o julgamento de Cristo. No filme de Mel Gibson somos levados a crer que o julgamento de Jesus foi uma verdadeira farsa. É só perceber no comportamento dos personagens que surgem perguntando sobre a legalidade do processo. Então somos levados a perguntar: Jesus teve um julgamento justo?

Então temos que nos reportarmos para a Judéia do século I. Naquele tempo, a palestina era uma província romana e como tal estava submetida a lei romana da época. E segundo esta lei, Jesus teve sim um julgamento justo.

Segundo Yann Le Bohec, professor de História Romana da Universidade de Paris IV – Sorbone, o processo romano era constituído de três atores: o acusador, no caso acusadores, que eram “os sumos sacerdotes e os anciãos do povo” (Matheus 26,3); o acusado, Jesus; e o juíz, Pôncio Pilatos, representante do imperador e governador da Judéia.

Para iniciar o processo, os acusadores tinham que apresentar o acusado ao juíz e foi o que aconteceu. A guarda do templo depois de capturar Jesus, no Monte das Oliveiras, o leva ao Sinédrio – do grego synédrion, que significa assembléia, conselho. Na presença dos sumos sacerdotes, Jesus se cala. É interrogado várias vezes, primeiro por Anás e em seguida por Caifás, na presença de alguns membros do Sinédrio. “É pouco provável que os 71 membros tenham se apresentado durante aquela noite” – diz Simon C. Mimouni, professor do Departamento de Ciências e Religião da Escola Prática de Autos Estudos de Paris, França, no texto A Morte de um Rebelde. De fato é o que vemos no filme A Paixão de Cristo de Mel Gibson quando a legalidade do processo é questionado. Em relação aos evangelhos também não há uma unanimidade se Jesus foi submetido a um processo propriamente dito, Matheus e Marcos dizem que sim, mas o Evangelho de Lucas não fala em processo.

Bem, durante o interrogatório, os sumos sacerdotes procuram incriminar Jesus antes de levá-lo a presença de Pôncio Pilatos. Tentam incriminar Jesus por suas ações no Templo, onde ele teria arremessados as mesas dos comerciantes e mercadores, no entanto por falta de provas a acusação foi anulada (Marcos 14,58; Matheus 26,24). Dessa forma passaram a questionar Jesus sobre a sua suposta identidade messiânica.

Perguntado se ele afirmava ser o filho de Deus, Jesus respondeu: “Tu o dissestes; digo-vos, porém que vereis o filho do homem assentado à direita do Poder e vindo sobre as nuvens” (Matheus 26,64). Diante dessa afirmação, Caifás rasga suas vestes e condena Jesus por blasfêmia ao se intitular “filho de Deus”. Mas vale lembrar que não somente por isso, Jesus foi acusado por ser o “Rei dos Judeus” como veremos a frente.

Jesus é levado ainda de madrugada para a casa de Pôncio Pilatos, no palácio de Herodes, o Grande. Agora os três principais atores do processo romano estavam juntos: os acusadores, o acusado e o juiz. A punição de Jesus dependia de Pilatos, pois este representava a autoridade romana na província, então Pilatos pergunta: “Tu és o rei dos judeus?”. Jesus fica calado. O governador da Judéia então fica sem tem ter muito o que fazer diante o silêncio do acusado. O que mais pesa para Jesus é sua categoria na sociedade. Ele se enquadrava na categoria de peregrino: homem livre, mas sem cidadania romana. “Para os romanos, ele não passa de um vagabundo judeu, o que o torna duplamente indigno porque não exerce profissão e é – de resto, como seus adversários – descente dos vencidos”, diz Yann Le Bohec. Pilatos insiste em perguntar sobre a pretensa realeza de Jesus, pois é desta forma que pode condená-lo.

Mas no filme de Gibson, vemos um Pilatos que não está nada confortável em condenar Jesus. Ele é abordado por sua mulher, que teve um sonho onde ele não deveria fazer nada contra Jesus, mas o seu cargo não o permite ficar em cima do muro. A questão que se coloca: se Pilatos deixa Jesus ir, pode provocar uma rebelião popular, mas se condenar Jesus não estaria ele de fato condenando o filho de Deus? Mas segundo os historiadores, Pilatos age de acordo com a sua função de governador. Como disse, Jesus se enquadrava na condição de peregrino e nesse caso a punição era a crucificação. Jesus é condenado por Pilatos segundo a lei lex maiestate, uma lei anterior a Júlio César e a Augusto que punia com a morte a alta traição em relação ao Estado.

Mas antes de ser crucificado Jesus deveria ser antes flagelado até ficar enfraquecido para inspirar o medo público. Mas isso veremos no próximo post.

A Paixão de Cristo - Parte I

No próximo dia 4 de abril os cristãos relembram a Paixão de Cristo, onde refletem sobre o sofrimento de Jesus que morreu para redimir os pecados da humanidade. Era bastante comum nessa época os cinemas de rua exibirem filmes contando sobre o relato da Paixão. Aqui em Belém sempre se exibia Jesus de Nazaré (1977) de Franco Zeffirelli. Quando eu trabalhava numa locadora de DVD's, as pessoas sempre procuravam filmes sobre as últimas horas de Cristo, no caso iam atrás do filme A Paixão de Cristo (2004) de Mel Gibson. Este filme de fato provocou uma grande comoção quando foi lançado. Além do mais, Mel Gibson tinha que apresentar um diferencial de sua versão em relação às outras.

Desde quando o cinema é cinema o relato da paixão de Cristo já se encontrava retratado nas películas. Diversas versões para uma mesma história: o martírio de Jesus, desde o seu julgamento até sua crucificação. Então por que Mel Gibson, em 2004, resolveu mais uma vez levar essa história ao cinema? O que ele iria mostrar além daquilo que todo mundo já viu? Aí é que está! Ele mostrou o que muita gente nunca viu. Não de maneira tão visceral.

Para começar, Mel Gibson resolveu contar a história das últimas 12 horas de Jesus utilizando as línguas faladas à época: o latim, o aramaico e o hebraico. Detalhe: Gibson queria lançar inicialmente o filme sem legendas, no entanto voltou atrás. Daí já percebemos a tentativa do diretor de mostrar uma história bem próxima da realidade do evento. Por isso quer nos choca com imagens violentas, utilizando efeitos especiais para mostrar de maneira visceral a flagelação de Jesus. Apoiado pela fotografia de Caleb Deschanel e pela música incidental de John Debney apela para o sentimentalismo do espectador. De fato Mel Gibson parece ter conquistado e provocado a reação que desejava. Na primeira semana de exibição, o filme já havia arrecadado o seu valor de custo e quando foi apresentado ao papa João Paulo II ele disse: "o filme é como era".

Neste e nos próximos posts irei me atentar em alguns pontos principais do filme e da história que têm recebido, atualmente, uma revisão por parte dos historiadores e dos teólogos.

O ponto de partida do filme é o Monte das Oliveiras, ou Getsêmani, em aramaico Gat Shemanin, que significava prensa de azeite. Aqui o filme mostra Jesus – ainda não o Cristo – procurando respostas para entender a vontade de Deus e sofrendo as tentações de um Satanás andrógeno. Logo adiante surge Judas para cumprir o seu papel que o tornou na figura do traidor. Hoje sua participação na história da Paixão está sendo revisada. Jesus é entregue por Judas, não traído. Afinal de contas nenhum dos evangelistas (Marcos, Matheus, Lucas e João) empregam a palavra “traição”, apenas Lucas usa a palavra “traidor” uma única vez. Vale lembrar que os redatores gregos empregavam o verbo “entregar”, “transmitir”, no entanto em português “entregar” é sinônimo de traição.

Conforme diz o teólogo protestante Karl Barth “de certo modo, Judas é, fora Jesus, o personagem mais importante dos evangelhos. Dentre os apóstolos, só ele agiu para a realização daquela que era a vontade de Deus”, mostra como hoje os historiadores e teólogos estão revendo a posição de Judas que ficou estigmatizado através dos séculos pelo seu ato de “traição”.

A lógica apresentada por Karl Barth pode ser melhor entendida na sequência provocada pelo verbo “entregar” conforme Isabelle Vissiére, professora de Literatura Francesa nos Estados Unidos e na França: “Judas entrega Jesus a Caifás, que o entrega a Pilatos, que o entrega aos soldados e a multidão”. Dessa forma a Paixão é consumada.

O destino final de Judas sempre é o mesmo: uma morte injusta. Em Matheus, Judas joga as 30 moedas no Templo antes de se enforcar, enquanto em Ato dos Apóstolos Judas teria caído numa pedra, partindo-se ao meio e suas entranhas derramadas.No filme de Gibson percebemos que Judas logo se arrepende do ato da delação e passa a ser atormentado por demônios – na figura de crianças. Não agüentando, Judas se mata. Como podemos perceber, Judas tem um fim sem misericórdia diferente de Pedro que nega Jesus três vezes, mas é perdoado.

De fato entender o papel de Judas no contexto da paixão não é nada simples. Teria sido ele um traidor ou aquele que estava apenas cumprindo a vontade de Deus?

301 de Esparta

Este é um dos primeiros textos (ou o primeiro, não me lembro) que produzi fazendo esse contraponto entre cinema e história, refere-se a uma análise breve do filme 300 de Zack Snyder.

Vamos ser logo diretos: 300 não é um filme com pretensões históricas. É ingênuo achar que assistindo ao filme teremos um relato fiel da Batalha das Termópilas ocorrida durante a Segunda Guerra Médica (481 e 479 a.C.), mas antes de tudo, entender os fatos históricos apresentados no filme torna a história mais interessante e evita que possamos cometer qualquer gafe quanto ao conhecimento histórico.

Heródoto de Helicarnasso (490-425 a.C.), historiador grego, produziu em suas Istorai - em grego, investigações ou explorações - uma das fontes primordiais sobre a Batalha das Termópilas. Relatos estes que serviram de base para que Frank Miller fizesse 300, sua graphic novel, trabalho que foi a fonte para o filme dirigido por Zack Snyder. Mas considerações à parte, vamos analisar alguns pontos explorados pelo filme 300 e perceber que relação existe com os fatos históricos.

No início do filme somos apresentados a eugenia, prática espartana de purificação da raça. Ao nascer a criança era examinada por um grupo de anciões, se não apresentasse nenhuma deformidade a criança ficaria com a família até os 7 anos e depois enviada ao quartel, mas se apresentasse um defeito qualquer era sacrificada, sendo arremessada do alto de um penhasco. Mas é importante dizer que toda regra tem sua exceção. Heródoto em seus relatos diz que quando Leônidas nasceu este apresentava um dedo torto e por isso teria que ser sacrificado, mas o ancião que o examinou teria percebido que aquela criança estaria destinada a realizar uma grande façanha e a poupou.

Um outro ponto curioso do filme que vale a pena ser analisado é o papel da mulher na sociedade espartana. De fato ela gozava de mais liberdade em comparação com as mulheres atenienses. Em Esparta, as mulheres eram preparadas desde crianças para a guerra e também preparavam o corpo para gerar o guerreiro perfeito. Em 300 é marcante a presença de Gorgó, mulher de Leônidas, que na verdade era também sua sobrinha. Em certa ocasiões teriam perguntado para Gorgó por que as mulheres espartanas eram "as únicas gregas que mandavam nos homens", e ela respondeu: "Ora, porque parimos homens de verdade". Mas muito cuidado: em 300, Gorgó se dirigi aos cidadãos espartanos na Assembléia, no entanto não existe nada documentado de que mulheres tomassem parte das decisões políticas, exclusivas aos homens.

Um outro traço da cultura grega que aparece no filme, mas não é explicado, é a Carnéia. Durante esse festa, um dos mais importantes festivais religiosos em honra ao deus Apolo, os líderes gregos não podiam declarar guerra e nem retirar seus exércitos de suas cidades, pois todos os cidadãos homens deveriam ser purificados.

Os persas não eram tão "assombrosos" como representados no filme 300, e segundo os relatos históricos tão pouco representavam uma verdadeira ameaça ao mundo grego. Os persas eram pacíficos e tolerantes - em comparação aos assírios e babilônicos - não representavm uma ameaça aos costumes locais, não impunham sua língua e nem sua religião. No entanto esses fatos não aperecem no enredo do filme porque isso não interessa. O que importa é a visão maniqueísta da história, ou seja, a eterna luta do "bem" contra o "mal", e alguém sempre tem que fazer o papel do "mal".

Dificilmente assistiremos um filme fidedigno aos fatos e valores históricos, pois temos que levar em conta que o filme é o produto de uma visão individual ou de um grupo, que modificam a história para inserir mais romantismo, suspense, ação ou comédia. Ignorar esses fatos é fatal, pois estaremos absorvendo uma visão não condizente com a realidade do fato histórico. Se quiséssemos que 300 fosse fiel aos fatos documentados, o título do filme deveria ser modificado para 301, porque parece que na contagem final, deixaram Leônidas de fora.

Apresentação

Olá amigos da História e do Cinema, esse blog é criado para vocês! Pretendo fazer uma introdução para o blog, mas por enquanto fica aqui apenas essa apresentação.
Meu nome é Luiz Alexandre, sou aluno de História da UFPA e me interesso muita pela relação do Cinema e da História, tanto como método de investigação quando suporte educacional.
Neste blog farei algumas análises de filmes, mostrando as minhas impressões e dando algumas dicas.
Então galera, até mais!